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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Espiritos Afogados De Scott Nicholson.

Tradução de Flávia Assis

Copyright ©2010 Scott Nicholson

Publicado por Haunted Computer Books

Smashwords edition




Lá fora, enquadrado pela janela, o mar. A língua do oceano lambe a costa

como quem mexe numa velha cicatriz. Nuvens pesadas e cinzentas pairam no

céu, jogadas umas contras as outras pela ameaçadora fúria da natureza. À

distância, uma pequenina vela branca, ou talvez uma gaivota desamparada,

distante demais para voltar à terra.

Espero que seja uma gaivota.

Porque ela pode vir dessa maneira, vinda do nascente cor de lavanda.

Pode se erguer dos renitentes campos arenosos por trás da casa, ou se infiltrar na

árvores prateadas, mais além. Ela pode chegar mil vezes, em mil cores

diferentes, de todas as direções.

Eu quase consigo ouvi-la, os passos leves na escada, o sussurro das rendas

rotas, o ruído dos ossos da mão deslizando rapidamente pelo corrimão.

Quase.

Não é o medo que cola meus braços e pernas à cadeira, pois sei que ela

não quer a morte como vingança. Ah, se fosse assim tão fácil pagar meus

pecados.

Na verdade, temo o momento em que ela aparecerá diante de mim,

quando seus olhos suplicantes olharão através dos meus e seus lábios perdidos se

abrirão numa pergunta.

Ela vai perguntar por quê, e, que Deus me ajude, eu não terei resposta.

Cheguei a Portsmouth para fazer uma matéria para o caderno de viagem

de uma grande revista. Na minha carreira, aprendi a não amar nenhum lugar e a

gostar de todos, pois os editores querem entusiasmo no texto. Assim, nem a

vastidão e a beleza gelada das montanhas Rochosas, nem os úmidos desfiladeiros

dominados por sequoias do Oregon, nem os flamejantes tons pastéis dos desertos

do sudoeste, nem as antigas e acolhedoras curvas dos Apalaches, nem as grandes

planícies douradas no centro do país conquistaram lugar mais especial no meu

coração do que qualquer outra região dos Estados Unidos. Na verdade, em

grande medida, as impressões que formei sobre esta terra e seu povo vieram de conversas superficiais e paisagens emolduradas por janelas de aviões, trens e,

ocasionalmente, de táxis e navios.

Por isso, as Outer Banks não me eram nada especiais quando cruzei a baía

de Pamlico de ferry boat para chegar a Ocracoke. Ao norte ficava o histórico

farol do cabo Hatteras, o mais alto do país, que estava sendo removido de sua

base erodida ao custo de milhões de dólares. Cheguei a pensar em parar lá e

cobrir a remoção para tentar vender outra reportagem, mas as matérias para a

revista sempre têm prioridade sobre trabalhos como freelancer, porque nunca é

bom trocar o certo pelo duvidoso.

Assim sendo, rumei para a lúgubre Portsmouth. Em Ocracoke, encontrei

o homem que deveria me levar àquela cidade. Quando entrei no pequeno barco

com mochila e duas bolsas, com o laptop e a câmera embalados como proteção

contra a maresia, o barqueiro me olhou com desconfiança.

— Quanto tempo você vai ficar? — Perguntou ele, cuja face vincada

estava tão maltratada pelo tempo quanto o casco do navio.

— Três dias, embora estejam me pagando por sete — respondi. — Por

quê?

— Se me permite a ousadia, você não parece ser do tipo que aguenta

ficar sem conforto. ― Sob a viseira do boné, seu olhar agitado mudava

constantemente de mim para a enseada, depois para o céu e para a confusão da

doca.

— Eu me viro — respondi, nada satisfeito com a descrição que o velho

lobo do mar fizera de mim. É verdade que eu me sentia mais em casa num hotel

três estrelas do que numa barraca de camping, mas fazia minhas caminhadas e

tentava ficar só um pouco acima do peso, como a maioria dos americanos de

meia-idade.

O homem olhou para o mar, na direção de Portsmouth.

— Ela é dureza, se estiver de ovo virado — alertou, para logo jogar o

manete para a frente e desencostar o barco do cais aos borbotões, em meio a

uma neblina oleosa.

Ficamos sem falar por alguns minutos, enquanto eu me deixava ficar na

proa batida pelas ondas e Ocracoke encolhia atrás de nós. O silêncio foi

interrompido pelo grito do barqueiro, mais alto do que o barulho do motor:

— Espero que você tenha trazido repelente!

— Por quê? — Perguntei, enquanto os jatos de água do mar criavam uma

película grudenta na minha cara.

— Os insetos vão comer você vivo.

— Será que não me emprestam um vidro no posto da guarda florestal? —

Repliquei.

O homem riu, e sua cabeça se enfiou para dentro do pescoço como se ele

fosse uma tartaruga marinha.

— Não tem guardas florestais por lá. Não nesta época do ano.

— Como assim?

— É a temporada de furacões. Bom, por causa disso e dos cortes de

verba. O governo não tem nada a ver com a ilha. Lugares assim deveriam ficar

em paz.

As informações que me passaram deviam estar erradas. Portsmouth

estava sob a administração do Serviço Nacional de Parques desde que os últimos

habitantes deixaram a ilha 30 anos antes. Um assistente editorial me garantira

que, durante a minha estadia, pelo menos dois guardas florestais estariam de

serviço, instalados em um posto equipado com um rádio de ondas curtas movido

a bateria e dotado de suprimentos de emergência. Foi por essa única razão que eu

havia concordado em fazer uma matéria num lugar tão desolado.

Mais uma vez, insultei em silêncio a falta de cuidado dos assistentes

editoriais.

— A previsão é de tempo bom — disse eu, sem deixar o barqueiro

antever qualquer preocupação minha.

— Você vai ficar bem. Pelo menos no que diz respeito ao clima. Ainda

assim, às vezes elas surgem de repente.

Olhei para o infinito mar azul. O horizonte estava deserto, num cenário

muito diferente do glorioso passado da navegação daquele lugar. Em minhas

pesquisas, descobri que a enseada fora uma das primeiras grandes rotas

comerciais para o Sul. Décadas antes da Revolução Americana, navios

fundeavam perto do canal raso e descarregavam mercadorias em barcos

menores, que então distribuíam a carga entre as cidades situadas ao longo da

costa. Estimulada pela indústria naval, Portsmouth cresceu e se desenvolveu

sobre aquelas lúgubres areias branco-acinzentadas.

— Muitos naufrágios por aqui? — Perguntei, mais para manter o homem

falando do que para preencher qualquer lacuna no meu conhecimento.

— Tantos que nem dá para contar. Tem de tudo, desde galeras de três

mastros até cargueiros de ferro. Uns desses hippies mergulhadores de Wood Hole

disseram que viram um submarino alemão afundado, mas eu acho que eles

tinham fumado um cigarrinho do capeta.

— Então as águas não são muito profundas aqui?

— Depende do movimento da areia de um ano para outro. Podem ser

cinco metros, podem ser trinta. É por isso que os grandões não passam mais por

E é por isso que Portsmouth morreu. Com a enseada cada vez mais rasa,

os navios já não queriam correr o risco de encalhar ou até mesmo romper o

casco nos recifes. A cidade tentou se adaptar às dificuldades e se tornou uma

base para equipes de navios de resgate, no final do século XIX. Muitos marujos

da cidade morreram em tentativas inúteis de resgate de pessoas e de carga.

Foi então que os navios deixaram de vez a região e os moradores

deixaram a cidade, família por família. A população encolheu dos 700 habitantes

dos tempos áureos para poucas dezenas na década de 1950. Os mais teimosos

nativos de Portsmouth permaneceram na terra natal apesar da falta de

eletricidade, da oferta irregular de alimentos, do serviço de correio intermitente e

da escassez de médicos e professores. Mas mesmo os mais empedernidos

finalmente desistiram e se mudaram, em busca de uma vida mais segura e

menos difícil, deixando para trás uma cidade fantasma, cujos prédios

permanecem praticamente intactos.

— Aí está ela — anunciou o barqueiro. Apertei os olhos para me proteger

dos borrifos d’água e enxergar a fina faixa de terra que surgia lentamente. A

praia era linda, porém desolada. O burburinho das gaivotas era o único

movimento além do vaivém das algas. Dunas baixas se erguiam além da praia

de areia branca.

— Muitos naufrágios aconteceram ao longo desse trecho — comentou o

barqueiro.

— Eu li que antigamente os marinheiros iam para o mar durante os

furacões para resgatar a tripulação de navios afundados.

— Eram homens de coragem — concordou ele. — Afinal, o sujeito tinha

que ser muito corajoso ou muito doido para fincar raízes aqui. Minha família é

daqui, mas eles saíram na época da Primeira Guerra, quando os lucros eram

bons. Mas ainda tem um monte de parentes meus na ilha.

Fiquei confuso.

— Pensei que a cidade estava abandonada, que só sobraram guardas

florestais.

Ele deu uma risada que lembrava o som de um golfinho.

— Eles estão embaixo da terra, nos cemitérios. Ficaram no lugar onde

foram enterrados.

O barqueiro manobrou o barco na direção de uma doca semidestruída,

pouco mais que algumas estacas pretas saindo das águas rasas. O motor

começou a rosnar à medida que ele diminuía a velocidade. Quando chegamos ao

lado da doca, ele amarrou o barco com mãos que lembravam patas de

caranguejo e eu pulei para cima das tábuas podres e escorregadias.

— Você já voltou? — Perguntei. — Para dar uma olhada nas coisas e

passar pelas casas em que os seus parentes moraram?

Ele ficou estudando o torvelinho de espuma e balançou a cabeça.

— Nunca. É melhor deixar o passado morto e enterrado. É melhor você

não se esquecer disso.

O barqueiro me passou a bagagem e pensei que ele poderia ao menos me

ajudar a carregá-la até terra firme. Doce ilusão, o sujeito não saiu de perto do

leme.

— Você me pega aqui na sexta, às quatro horas? — Perguntei.

Ele fez que sim, sem me olhar nos olhos.

— Se não tiver furacão, estarei aqui.

— O pagamento chegou direitinho?

Eu sabia que revistas às vezes demoravam eras para fazer pagamentos e

não queria que a minha passagem de volta ao continente fosse cancelada. Aquele

homem era meu único elo com a civilização, a menos que eu conseguisse entrar

no posto e usar o rádio de ondas curtas.

— Tudo certo com o dinheiro — respondeu ele. — Imagino que essa é a

única razão para você estar fazendo isso.

— Até é, mas também estou curioso. Não existem muitos lugares como

este, onde você pode se perder no tempo.

— É, mas não vá se perder demais. Voltona sexta. Fique fora das casas e,

pelo amor de Deus, não entre nos cemitérios de jeito nenhum.

O barqueiro desamarrou o barco e se afastou da doca. Depois, virou o

leme do barco até ficar de costas para mim. Acenei, mas ele não se virou. O

barco já havia sumido de vista quando consegui carregar todas as bolsas até as

colinas de areia que protegiam a ilha dos piores ventos.

Quando cheguei ao topo das dunas, as casas mortas de Portsmouth se

esparramaram à minha frente. Tinham o mesmo tom branco-acinzentado da

areia, pois a pintura das casas coloniais fora descascada por décadas de erosão

natural pela areia. Ficavam a dezenas de metros de distância umas das outras e

todas se erguiam alguns metros acima do chão, sustentadas por pilastras de

concreto ou tijolo. Carvalhos e pinheiros raquíticos preenchiam os imensos

espaços entre as construções. Deixei as malas na primeira varanda que

encontrei, numa casa de três andares que era a mais alta da ilha.

Não acreditei na conversa do barqueiro de que não havia ninguém na ilha.

Mesmo que os postos da guarda florestal estivessem abandonados, devia haver

alguns campistas ou marinheiros de passagem por lá. Eu não achava que alguém

fosse roubar meu equipamento, mas o laptop valia alguns milhares de dólares e,

se alguém pegasse meus suprimentos, não daria para andar até uma loja de

conveniência e comprar mais.

Apesar dos avisos, entrei na casa. As tábuas de pinho, velhas e escuras,

rangiam sob meus pés. A sombra era um alívio para o sol inclemente do verão e

as janelas estreitas transformavam em reconfortante brisa o vento cruel do lado

de fora. Os muitos cômodos do térreo estavam vazios. Encontrei a escada à

esquerda do vestíbulo e subi os degraus ressequidos. No segundo andar, havia

duas cadeiras velhas, uma delas de balanço. Em seguida, explorei o terceiro

andar, que não passava de um sótão triangular. A vista da única janela era

espetacular: além da cidade quase toda, também via-se ambos os litorais, o

voltado para o Atlântico e o voltado para o continente, pois a ilha não chegava a dois quilômetros de largura. A janela também tinha um pequeno peitoril onde eu

poderia apoiar o laptop e escrever. Decidi fazer daquele cômodo o meu quartel-
general durante minha curta visita.

As regras do parque permitiam que os visitantes entrassem nas casas, mas

era proibido permanecer nelas. Costumo respeitar normas, mas, se até os

guardas florestais largaram o lugar à mercê dos elementos, concluí que era meu

direito de desabrigado ficar ali, considerando que eu mesmo era uma força da

natureza. Além disso, depois que o meu artigo fosse publicado, o interesse

renovado pelo local poderia gerar mais divisas para o Serviço de Parques

Nacionais, graças às taxas pagas pelos novos visitantes. Uma boa publicidade não

faz mal algum na hora da dotação orçamentária.

O sol se escondia rapidamente atrás da linha do horizonte. Guardei os

suprimentos num armário escuro e sem portas, carreguei a cadeira de balanço

para o terceiro andar e sentei em frente à janela para descansar. Olhei para

baixo e imaginei como seria a cidade 150 anos antes, com a movimentação

comercial a beira-mar, crianças correndo pelas ruas arenosas e irregulares,

mulheres em vestidos longos cuidando de seus afazeres. Talvez um ou dois

cavalos, certamente não mais que isso, puxassem carroças carregadas com

produtos dos navios mercantes, barriletes de água, grossos rolos de corda e sacas

de farinha de trigo e de milho. Eu quase conseguia ouvir os gritos e cantos dos

marinheiros que carregavam e descarregavam os escaleres.

O cemitério ficava atrás de um carvalho envergado pelo tempo. Algumas

das lápides estavam caídas e os poucos anjos e cruzes que ainda resistiam ao

vento estavam bem desgastados e esburacados. Lembrei-me das palavras do

barqueiro, que dizia para evitar cemitérios. Nada, porém, escrevia melhor a

história de um lugar do que os nomes e as datas de seus mortos e eu sabia que

não resistiria a uma visita.

Não sei se cochilei, embora eu raramente durma antes do sol se recolher,

mas o fato é que, quando dei por mim, estava andando pelo cemitério, pés

descalços contra a grama dura. O céu estava de um azul profundo e caminhava

para um crepúsculo quase sem estrelas. A brisa do mar gemia entre as lápides de

mármore e o ar tinha gosto de sal e algas e madeira de navio.

Ela surgiu do nada, tão branca quanto a areia. O cabelo escuro escorria

por sobre o lindo rosto e os olhos negros eram um contraste à pele. O elegante

vestido de estilo vitoriano era branco, de mangas longas e cintura alta, com todos

os arremates em renda. Saiu das sombras e estendeu as mãos.

Era jovem, tinha uns dezoito anos, mas seu corte do cabelo não tinha nada

de moderno. Por um instante, pensei que ela estivesse em uma festa à fantasia

com os amigos na praia, todos reunidos em torno da fogueira com violões e vinho

e risadas antes de formarem pares e transar na areia. Depois percebi que sua

expressão estava séria demais para alguém que vinha da farra.

— Senhor, por favor, houve um naufrágio na baía — disse ela com voz

trêmula, porém forte. — Pode ajudá-los?

— Como?

— Eles estão naquela direção — insistiu, apontando nervosamente para o

leste. — O Walker Montgomery afundou com quarenta marujos a bordo, senhor.

Nossos homens foram resgatá-los nos botes a remo, mas receio que eles também

estejam em perigo. Partiram há muito tempo, senhor, muito tempo mesmo.

Os olhos dela se encharcaram de lágrimas sob o brilho da lua amarelada.

Balancei a cabeça, com certeza alguém estava me pregando uma peça. Devem

ter me visto e se aproveitaram do isolamento às minhas custas. Eu tinha certeza

de que os amigos dela surgiriam da escuridão gargalhando estrepitosamente e

me convidariam para beber com eles.

Mas ela mantinha os olhos fixos, belos olhos assombrados que me feriram

como arpões. Não havia nenhuma alegria neles. Ela segurou meu braço; seus

dedos estavam frios.

— Ajude-os — suplicou. — Ajude-o.

— Quem? — Perguntei estupidamente.

— Meu Benjamin. No leme do barco de resgate principal.

— Eu... Eu não estou entendendo.

Ela puxou a manga da minha camisa, os olhos escondidos pelos cabelos.

— Há outro barco na beira da baía — disse ela. — Talvez, se remarmos

juntos, consigamos chegar a eles a tempo. Depressa, por favor, antes que a

tempestade leve todos.

Não havia tempestade. As ondas quebravam na costa, com o som eterno

e suave da arrebentação. O vento mal daria para sustentar uma pipa. Entretanto,

havia algo na voz dela que fazia meu coração bater mais rápido, ao mesmo

tempo em que fazia meu sangue gelar. A lua foi subitamente engolida por nuvens

― Siga-me ― disse ela, seguindo em frente, por entre as lápides, para a

escuridão.

Fiquei onde estava, e então virei-me para ver o casarão onde estava

acampado. Uma luzinha brilhava fraca, talvez a vela que eu usara para ler.

Quando me dei conta, ela havia sumido. Corri algumas centenas de metros pela

areia, mas não a encontrei.

Só então os ventos se aceleraram, as nuvens se abriram e a luz da meia-
lua banhou a praia. A baía parecia deserta e monótona. Não havia qualquer sinal

da dama de branco, nem mesmo pegadas na areia molhada.

Ainda que um tanto desconcertado, finalmente consegui voltar à casa.

Subi ao quarto onde eu havia estendido o saco de dormir e deixado meus livros e o laptop. A vela queimara até a metade. Devo ter ficado horas na praia.

Entorpecido, me arrastei para dentro do saco de dormir e me refugiei no sono,

inquietado pela imagem daquele belo rosto.

Pela manhã, ri de meus sonhos estranhos e gastei mais uma parte dos

meus suprimentos. Abri uma lata de sardinhas e comi uma maçã, e depois passei

uma hora debruçado sobre o laptop, registrando minhas impressões sobre o

desembarque de ontem. Satisfeito por haver começado a pagar o investimento da

minha editora, vesti um short e uma camisa leve, e fui para o coração da cidade-
fantasma.

Caminhando por entre casas vazias e janelas bloqueadas, tive a sensação

de que havia olhos me observando. Cheguei até a gritar um inquisitivo “alô!”,

ainda não convencido de que a ilha estava completamente desabitada. Não obtive

resposta, exceto pelo grito fúnebre das gaivotas.

Encontrei o posto da guarda florestal, que estava lacrado, portas e janelas

protegidas por barras de aço. Ao lado do posto havia uma construção que julguei

ter sido um armazém, pois havia bancos e um cocho de água no pátio de entrada,

e ganchos e suportes enferrujados cobrindo toda a fachada. O interior, no

entanto, estava desolado. Passei pelo balcão desabado e cheguei aos fundos do

galpão, que terminava em um píer.

Empurrei o portão empenado e segui para o final do píer. O Atlântico se

abriu perante mim, glorioso e salpicado de milhões de brilhantes. Observei a

barreira de dunas do outro lado da baía, a quatrocentos metros de distância, e

logo me lembrei da noite anterior. Por um instante, vi um pequeno veleiro de

anteparas destroçadas, a proa voltada para o sol, as velas como fantasmas

esfarrapados. Em um piscar de olhos, a ilusão sumiu. Ri sozinho, embora marcas

de suor tenham brotado na minha camisa.

O temperatura estava subindo rapidamente e, como o mar estava calmo,

tirei a camisa e os sapatos e entrei na água. Nadei um pouco e voltei para meu

estúdio improvisado, lamentando não dispor de um chuveiro. Almocei uma

refeição instantânea e peguei a câmera fotográfica, pronto para a caminhada de

seis quilômetros até a extremidade sul da ilha.

Ao cruzar aquela estreita ilha-barreira, percebi por que o povoamento se

restringiu à extremidade superior. O terreno não passava de um implacável

amontoado de dunas entremeadas por bolsões de água empoçada que em nada

lembravam os vibrantes pântanos da Flórida. Aqui havia lagoas lúgubres e

estéreis, onde apenas os mosquitos proliferavam. Nuvens desses parasitas

começaram a me atacar e passei mais tempo espantando-os do que

fotografando.

Como o cenário não se alterava, desisti do objetivo na metade do

caminho. Decidi fotografar apenas as construções antigas e as praias com seus

ocasos e alvoradas. Arrastei-me de volta à cidade abandonada, planejando escrever um pouco antes do anoitecer. Entretanto, não consegui me concentrar

no trabalho. Fiquei observando da janela as garras da noite tomarem a cidade,

pensando na mulher dos meus sonhos e comparando sua beleza a todas as outras

que já conheci.

Inquieto, caminhei pela praia sob o crepúsculo cinzento. Segui pelo lado

oceânico, ao longo da baía. Já me aproximava do velho armazém quando ela

surgiu da escuridão sob o píer. Vestia o mesmo vestido que embelezara suas

suaves curvas na noite passada. Seus cabelos lisos tremulavam ao vento, numa

visão rara. A palidez era o único senão, a única mácula que a separava da

perfeição.

Como da primeira vez, seus olhos escuros me procuraram em súplica

silenciosa.

― Podemos ir agora? ― Perguntou. ― Eles com certeza estão se

afogando por aqui.

Supus que ela tivesse morado na ilha por algum tempo. E embora eu

estivesse convencido de que a noite anterior fora um sonho, uma parte de mim

ansiava que aquilo fosse real, que houvesse nova oportunidade de observar sua

bela imagem novamente. E lá estava ela diante de mim.

― Onde eles estão? ― Perguntei, quase sem fôlego.

A bela apontou para o outro lado da baía, onde um raio de luar se agitava

por sobre as águas.

― Eles estão ali! Que tempestade terrível!

E, por um instante, eu vi. Ondas rugindo a cinco metros de altura, a chuva

prateada despencando em lâminas sólidas, os escaleres jogados para lá e para cá

pelo oceano furioso, como rolhas descendo pelo bueiro. Senti meu rosto

empalidecer.

― Por favor, corra, senhor. Meu pobre Benjamin está lá!

A moça passou por mim e agarrou minha mão. Ela era concreta, não

uma mera ilusão encantadora. Meus sentidos rodopiavam, audição, tato e visão

embaralhados. Eu estava fascinado por sua beleza e proximidade, e mortificado

pela visão da tempestade. Deixei-a me conduzir e suas súplicas competiam com

o rugido do vento inclemente. Nos momentos em que conseguia desviar os olhos

dela, eu espiava o litoral à nossa frente.

Um barco estava abicado na praia, a popa banhada pela espuma do mar.

As ondas ficavam mais fortes, quebrando com raiva e avançando sobre a areia

cada vez mais. Os primeiros pingos de chuva espetaram minha pele, mas o céu

estava quase sem nuvens. Não questionei esses acontecimentos inverossímeis.

Pensava em nada além da mão delicada, mas forte, que pegava a minha, e em

como eu ansiava que elas jamais se soltassem.

Aproximamo-nos do barco e ela começou a tentar devolvê-lo à água. A

chuva havia apertado. Seu vestido molhado aderiu ao corselete que lhe cingia a cintura e seus cabelos caíam em cachos selvagens sobre as costas. Devo tê-la

encarado atônito por alguns instantes, pois ela se virou para mim e ralhou:

― Venha, me ajude! Não temos muito tempo!

Corri para seu lado, empurrei a proa com toda a força e senti o barco

começar a deslizar. Um vagalhão tremendo liberou o casco da areia. Ela

embarcou pela lateral, fazendo um sinal para que eu a seguisse. A tempestade

caía com violência e o vento ficara tão forte que eu mal conseguia ficar de pé.

Em meio à escuridão, eu não conseguia mais enxergar o navio adernado nem os

salvadores.

Amoça estendeu a mão a mim e implorou:

― Venha, não consigo remar sozinha. Benjamin está lá!

Ergui a mão para pegar a dela, mas me detive subitamente. Balancei a

cabeça negativamente, mais para mim mesmo do que para ela. Aquilo era

loucura. Pura loucura.

Um enorme onda quebrou e voltou em contracorrente, puxando o barco e

a moça para o mar. Minha última visão foisua boca aberta e seus olhos

arregalados, em contraste com a palidez de seus belos traços. E assim ela

desapareceu sob a tempestade. Afastei-me da maré crescente, protegendo o

rosto com os braços contra a chuvarada ofuscante. Cheguei às dunas e

atravessei-as, desajeitado, até me ver entre as casas de Portsmouth. Tombei

exausto ali mesmo.

A tempestade cedeu tão subitamente quanto surgira. Quando abri os olhos,

a lua estava no céu e a brisa dobrava a vegetação gentilmente contra a minha

pele. Fiquei ali, desorientado, e olhei para a baía. O mar estava plano como

vidraça.

Caminhei entre as construções vazias, de volta para o quarto. É claro que

eu estava sonhando. Logo eu despertaria e veria um artigo escrito pela metade,

um monte de latas vazias e roupas sujas, a minha cara com a barba por fazer. É

claro que eu estava sonhando.

No entanto, acordei com as roupas encharcadas de água salgada.

Passei o dia seguinte vagando pela cidade. Esqueci completamente do

trabalho, larguei a câmera na bolsa lacrada. Repeti a mim mesmo que só faltava

uma noite e então o barco chegaria para me rebocar de volta à sanidade, ao

mundo normal. Eu não iria me permitir enlouquecer naquela sombria cidade-
fantasma.

Acabei topando com o cemitério e atravessei impulsivamente os portões

enferrujados. Voltei ao lugar onde vi a jovem pela primeira vez. Na luz brilhante

do dia, o sol refletido em areia e mar, enxerguei com clareza alguns detalhes que

não fora possível observar naquela primeira noite na ilha. Duas lápides eram

idênticas no formato e no grau de envelhecimento.

Na primeira, lia-se “Benjamin Elijah Johnson, 1826-1846” e, logo abaixo

e em letras menores, “Desaparecido em Mar”. Na segunda, logo ao lado, a frase

gravada em alabastro dizia “Mary Claire Dixon, 1828-1846”, com o mesmo

epitáfio da outra.

O mais estarrecedor eram as mãos entalhadas nas lápides. A mão na

lápide de Benjamin Johnson, embora desgastada por mais de um século e meio

de intempéries, claramente se estendia para a esquerda, em direção ao túmulo

de Mary Dixon. A mão de Mary, gravada em baixo-relevo, delgada e graciosa,

se estendia para a direita, como se ansiasse por um último carinho. Nada era

mais pungente do que aquele arranjo eterno.

A mão de Mary. Botei os dedos sobre os dela, explorando-os suavemente.

Eu conhecia aquelas curvas e sulcos, aqueles dedos esguios que o escultor

reproduzira tão habilmente. Eu havia segurado aquela mão.

Não sei quanto tempo fiquei no cemitério. As sombras começaram a se

alongar, a brisa mudou de direção, e eu tinha consciência de que, se não saísse

logo, ficaria para sempre enraizado ali. Desliguei-me do par de túmulos e corri

de volta para o quarto. Resolvi que não sairia mais. Ficaria lá, no saco de dormir

ou na cadeira de balanço, até o retorno do barco.

Naquela noite, muitas nuvens vieram de sudeste. Os ventos chacoalhavam

as persianas que restavam na velha casa. Desejei com todas as forças que o

tempo melhorasse, para que o barqueiro não perdesse a coragem. Mas, da janela

alta, vi a tempestade se aproximar da ilha e os ventos urrarem com o início da

chuva. Um relâmpago iluminou o céu de carvão, revelando-a no pátio abaixo.

Minha Mary.

Ela olhou para mim com aqueles olhos arrebatadores, os cabelos longos

escurecidos pela chuva, a graciosa silhueta coberta pelo majestoso vestido. Senti

o coração palpitar, acelerado por medo e desejo. Um segundo relâmpago

mostrou que ela acenava para mim. Tentei desviar o olhar, mas não consegui.

Ordenei que meu corpo ficasse naquela janela, mas minhas pernas

tomaram vida e me carregaram pela escadaria. Desci, pé ante pé, em

apavorante expectativa. Quando cheguei ao térreo, a tempestade havia piorado e

a casa inteira tremia sobre os pilares instáveis. Mary me aguardava na varanda.

― Você vem?

― Mary.

Ela fez que sim em silêncio, virou-se e correu para o meio da tormenta.

Fui atrás dela, disparando ensandecido por Portsmouth, esbravejando aos

céus, vomitando impropérios que se dispersavam em meio à tempestade. A

ventania, batendo nas casas vazias, soava como a risada de uma grande plateia.

Corri em direção à praia, onde eu sabia que estava o barco.

Mary já o havia lançado ao mar e fazia sinais para mim com o remo.

Lutei contra as ondas, mas finalmente alcancei a popa e subi a bordo. Ela empunhava um par de remos, com as costas arqueadas, e mergulhava a madeira

nas águas turbulentas. Havia mais um par de remos, que agarrei

desajeitadamente, tentando acertar as remadas ao ritmo dela.

Aquilo era inútil, e eu sabia. Éramos dois contra a força do oceano, dois

contra a natureza, apenas dois. Mas eu não me importava. Eu só queria saber de

Mary, agradar Mary, estar com Mary.

Mais relâmpagos cortaram os céus, iluminando a já conhecida cena do

veleiro adernado e dos botes em perigo. Não sei se foi fruto de minha

imaginação, mas vi um homem de pé na proa de um dos barcos, acenando para

nós. Com certeza foi a minha imaginação.

― Benjamin! ― Gritou Mary, olhando por cima dos ombros tensionados.

Uma onda se encrespou ao nosso lado e o sal machucou meus olhos, meu

nariz e minha garganta. Mary continuou:

― Reme mais rápido! Temos que salvar Benjamin!

E se salvássemos? Se, de alguma forma, conseguíssemos vencer a

brutalidade do mar e nos aproximar do bote, e se por algum milagre

conseguíssemos voltar à praia, o que aconteceria?

Mary teria de volta seu Benjamin, e eu teria nada. Perderia Mary.

Parei de remar e nosso barco adernou. Mary percebeu que larguei os

remos.

― Ajude-me! ― Exclamou. Seus olhos transbordaram perplexidade e a

boca perfeita quedou entreaberta, gaguejando em silêncio.

― Não. Benjamin morreu. Você é minha agora.

Retomei os remos e comecei a remar de um lado só, até virar o barco de

direção. Eu esperava que Mary lutasse, que insistisse em remar para o lado

contrário, mas ela simplesmente largou os remos, deixando-os cair ao mar.

Ficou de pé no barco, em toda graça e glória, a beleza mais profunda já

criada. Sem dizer palavra, mergulhou no mar.

― Eu te amo! ― Urrei, sem saber se fui ouvido.

Esperei longos minutos que me pareceram horas, resistindo às correntes,

aguardando que ela emergisse. Um raio caiu novamente e pude ver que o veleiro

e os botes de resgate haviam desaparecido, vítimas do mar inclemente. Em cada

crista de onda, em cada jato de espuma eu enxergava uma renda do vestido de

Mary.

Ela não apareceu mais. Retomei os remos, completamente desorientado,

lutando para voltar a terra. Só me restava remar e remar, puxando o barco

inundado contra o mar que queria devorá-lo.

A tormenta logo cedeu, e me vi jogado na areia, tossindo água salgada. O

leste começava a se iluminar com os tons róseos da aurora. Ergui-me sobre os

joelhos com dificuldade e olhei para a baía. Não havia sinal de barco, de

naufrágio, de Mary.

Arrastei-me de volta ao casarão. Levei vários minutos para me entender

com as escadas e finalmente cheguei ao meu quarto, à minha cadeira de

balanço, à minha janela alta. Reassumi meu posto de vigia, um faroleiro dos

mortos.

Três dias se passaram, e continuo no meu posto.

Espero que o barqueiro tenha desistido de mim. Com tanto medo em seus

olhos ao vislumbrar os segredos da ilha, duvido até que ele tenha desembarcado

em terra. Fico imaginando se ele comunicaria meu desaparecimento ou se tinha

suas próprias regras, suas próprias obsessões. Até que alguém me ache, pode-se

passar uma semana ou mais.

Tempo bastante para que ela me encontre, se assim quiser.

O desejo tem algo de bizarro e destrutivo, algo de estranhamente belo.

Talvez essa seja a moral deste conto, que substituiu a matéria sobre turismo em

meu laptop. Quem encontrar este relato está autorizado a fazer dele o que quiser.

Esta história foi escrita há muitas décadas e apenas o final continuava em aberto.

O final.

Escuto-a agora, abaixo de mim, em passadas graciosas como o ritmo do

mar. Ela sobe a escadaria em espiral, cada vez mais próxima.

Talvez seja apenas o vento fazendo ranger a madeira velha.

Não sei o que mais temo.

Sua chegada em rendas e fúria ressentida?

Ou sua ausência, me privando da visão de sua beleza eterna e irreal?

Quase consigo ouvi-la agora.

Quase.

***

FIM


Fonte: http://lelivros.website/book/baixar-livro-espiritos-afogados-scott-nicholson-em-pdf-epub-e-mobi-ou-ler-online/

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